quinta-feira, 6 de julho de 2017

Killing Yourself: André Delacroix (Metalmorphose)



Voltando com a seção Killing Yourself, o ARTE METAL apresenta apenas uma mudança. Ao invés de focar em uma banda, focaremos em um músico com grande prestígio na cena (ou não – risos). No caso, nossa reestreia traz o mestre André Delacroix, baterista pioneiro no cenário metálico nacional. O músico acumula mais de 30 anos de carreira dedicados à música pesada e com passagens por nomes como Imago Mortis e Dust From Misery, tem como marco histórico e sua principal banda o legendário grupo carioca Metalmorphose. É muita história pra contar, então confira como ele discorre sobre suas principais contribuições fonográficas durante essas mais de três décadas.

 “Ultimatum” – Metalmorphose (Split com a Dorsal Atlântica – 1984)
 “Nossa, faz tanto tempo! (risos) Na verdade, foi uma experiência que eu só não chamo de “totalmente nova” porque a banda já tinha feito uma gravação “caseira” pouco tempo antes. Mas, sem dúvida, foi um momento de alegria para todos nós, sabermos que estávamos registrando os nossos sons autorais e ‘entrando’ no mundo das bandas com material gravado. Mal sabíamos que se tornaria um clássico e um dos primeiros registros de Heavy Metal no Brasil todo. Em termos de produção, nós estávamos totalmente nas mãos do engenheiro de som, que, no máximo já devia ter gravado algum Rock N´Roll, mas, Metal, nunca! Ou seja, foi tudo feito meio que ‘no susto’ e sem prévia experiência. Daí a falta de peso e a sonoridade bem cru e aquém do esperado, em termos de Heavy Metal. A temática era bem voltada para a ‘luta pelo Metal’ e para os fãs do Metal. Algo bem clichê, mas  verdadeiro até o osso. Em 83/84 (o disco foi gravado em 84, mas só foi lançado em 85, porque  naquela época  tudo demorava mais!) havia poucas bandas de Metal em atividade no Rio. A cena estava se formando, então, nós , com orgulho, fizemos parte dessa primeira geração (na verdade, Azul Limão e Dorsal Atlântica vieram um pouco antes), nos apresentando em qualquer lugar que nos oferecesse espaço (escolas, clubes, planetário, churrascaria, etc), sempre com grande presença por parte dos fãs pioneiros na cidade. Tempos românticos! Hoje em dia, esse split se tornou um marco no Metal brasileiro, figurando entre os primeiros registros fonográficos do estilo no Brasil (junto ao Stress, Karisma, SP Metal e Robertinho de Recife) e um álbum que sempre é mencionado quando o assunto é ‘Primórdios do Heavy Metal Nacional’.

Metalmorphose na década de 80


 “Dust From Misery” – Dust From Misery (1997):
Gravar esse álbum do Dust, foi a maior curtição. Entramos no estúdio, muito bem ensaiados, as músicas eram empolgantes e a galera estava animada em registrá-las. Aí, eu já tinha bastante experiência em gravar registros (na maioria demos, até então), então fiquei super confortável e considero uma das minhas melhores performances gravadas, até porque as músicas davam muito espaço pra eu me soltar e “mostrar serviço”.                                                             O Dust falava sobre assuntos diversos como relacionamentos, espiritualidade, atualidades, etc. Não havia uma temática específica, então as letras acompanhavam a diversidade musical. O disco foi produzido pela própria banda e a galera já tinha uma ideia formada sobre o tipo de sonoridade que queria alcançar. Eu acho que o resultado final ficou bem legal, pra época. Na época em que o álbum foi lançado, havia uma cena bem legal no Rio de Janeiro, com várias bandas com ‘som próprio’ (Scars Souls, Imago Mortis, Endless, Unmasked Brains, Dementia, Allegro, etc)  todas lançando bons registros (CD’s ou demos) e se apresentando juntas pela cidade, mais notadamente na tradicional casa de shows Garage (extinta, hoje em dia). Esse álbum foi lançado pela extinta gravadora Megahard e acredito que, infelizmente, não tenha sido mais bem sucedido, devido a uma divulgação fraca por parte da mesma. Provavelmente ele é um álbum considerado ‘cult’, difícil de ser adquirido, atualmente. Mas, acredito que ele seja um álbum que mostra como um álbum pode ser ‘bem costurado’, mesmo incluindo uma grande diversidade de influências musicais (Heavy, Thrash, Prog, Rock, Mantras, Industrial, etc).

Dust From Misery



“Vida: The Play of Changes” – Imago Mortis (2002):
Eu já tinha um grande respeito e admiração pelo Imago, quando fui chamado pra tocar na banda (na verdade, os irmãos Fábio e Fabrício me viram tocando com o Dust From Misery e curtiram e me chamaram – mesma coisa que aconteceu com o vocalista Alex Voorhees que foi meu colega no Dust), logo, aceitei o convite, com alegria. E maior sorte ainda, foi que eu entrei poucos meses antes de gravar esse registro que se tornou um clássico do Doom Nacional e um álbum bastante respeitado e bem considerado no país. Na verdade, eu entrei na banda com todos os (excelentes) arranjos de batera, já feitos pelo baterista original da banda, Flávio Duarte, e fui muito fiel ao trabalho dele, só adicionado ou tirando uma coisinha aqui e outra ali. Bom, resumindo rapidamente, o CD fala sobre um paciente em estágio terminal de uma doença chamada ‘Vida’ e das fases pelas quais ele passa durante esse processo, até chegar à sua morte. O CD foi gravado em um estúdio de ponta da época, o Creative, e a produção ficou por conta dos visionários irmãos Fabio e Fabrício, que já tinham uma ideia muito detalhada do que queriam para o CD. Esse foi o primeiro trabalho que eu registrei com click e em Pro Tools. Eu sempre fui um cara muito do ‘feeling’ ao tocar, então tive que treinar bastante com o click, pra estar à vontade na hora de gravar. Como o Alex disse, “esse foi o CD mais melancólico, gravado da forma mais divertida possível”. E é verdade. Apesar da banda tocar um som denso e melancólico, nos ensaios, nós éramos uma ‘família’ bastante unida e bem humorada. Bons tempos. Eu acredito que o “Vida” seja um clássico do estilo, no Brasil. Ele realmente foi um álbum muito bem composto e executado e que mostrou que um trabalho conceitual, com uma produção de ótima qualidade, podia ser feito no Brasil.  

“Transcendental” – Imago Mortis (2006)
Após a saída dos talentosíssimos membros fundadores (e principais compositores) Fábio e Fabrício, muitos acreditaram que a banda tinha perdido o seu caminho. Mas, foi um grande prazer, ver que o novo time de composição (liderado pelo vocalista Alex Voorhees) ainda conseguiu respeitar a herança da banda e lançar um ótimo trabalho. A banda novamente registrou o álbum no estúdio Creative e rolou aquele clima de ‘tô em casa’ e ‘brodagem’ com a equipe de lá. O click não era mais novidade, estávamos bem ensaiados, então tudo correu ‘macio’ e mais um petardo foi registrado. Em termos de conceito, o “Transcendental” segue de onde o “Vida” acabou, falando, então, sobre o pós morte, o espiritual. A produção foi feita, mais uma vez, pela banda. Nessa época, o Imago caiu na estrada pra divulgar o CD e realmente passou por várias experiências marcantes, pelo Brasil. Deu pra sentir o carinho e a admiração que os fãs têm pela banda, mesmo com as mudanças de formação e tal. Época muito divertida e, também, de muito suor deixado pelos palcos do país. O Transcendental foi um ótimo trabalho lançado pela banda, mas, talvez não tenha tido tanta atenção quanto o “Vida”, que realmente era um peso pesadíssimo a ser ‘superado’. Apesar de tudo, acredito que ele tenha representado muito bem o talento e dedicação da formação da banda na época. 

Imago Mortis


“Maldição” – Metalmorphose (2009) (Compilação)
Pra esse álbum, a galera estava, novamente, muito bem ensaiada e a química entre os integrantes maior ainda, após vários shows juntos. O estúdio (extinto) Master era muito bom e a equipe super gente boa. Tudo correu tranquilo e ficamos satisfeitos com um produto de qualidade muito superior ao da estreia, no split. A produção foi da própria banda e a temática, mais uma vez, falava de experiências pessoais, do cotidiano e da ‘luta’ pelo Metal. Eu me lembro que nós já tínhamos feito um bom nome no Rio, com shows sempre cheios e a galera realmente animada com a banda. Mas, a grande cagada, na época, foi que essa demo com seis músicas nunca foi lançada oficialmente e só circulou em forma ‘extra oficial em K7’, pelo underground carioca. Uma grande pena, pois a qualidade sonora / produção e performance dos músicos é infinitamente superior ao “Utimatum”, apesar de ter sido gravado somente um ano depois. Finalmente, em 2009 (24 anos após ter sido gravada), essa demo foi lançada em formato CD com extras e finalmente teve uma exposição maior. O lançamento do “Maldição” representa o resgate histórico de um ótimo trabalho que havia tido pouca exposição na época de sua gravação e um dos sinais de que a banda estava voltando a ativa.

“Máquina dos Sentidos” – Metalmorphose (2012)
Foi muito legal. Começamos nosso ‘ciclo’ com o produtor Gustavo Andriewski (da banda Silent) e com a gravação das bateras no estúdio HR, coisa que se repetiria nos dois próximos discos da banda.  A satisfação de gravar, finalmente, o primeiro full length da banda, após tantos anos, adicionou um clima especial ao registro. A temática da banda se baseava mais nas coisas do cotidiano, mas com uma ênfase maior em mensagens positivas.  A produção do Gustavo capturou bem o momento da banda e suas contribuições em arranjos também foram importantes pra o resultado final do petardo. Lembro que estávamos todos empolgados com o registro e com essa ‘oficializada’ da volta da banda. Vínhamos de alguns shows bem sucedidos (inicialmente apenas com o intuito de celebrar o passado), que nos ajudaram a retomar o espaço da banda no meio e sentimos que com esse novo trabalho, estávamos no bom caminho para evidenciar o nosso retorno com força total ao mundo do Metal. Representa um bem sucedido retorno da banda às atividades, mostrando que a nova formação tinha muito o que mostrar e que a banda não precisava viver de passado pra reconquistar seu espaço. O ‘Mark II’ da banda foi muito bem aceito. Novos clássicos ( Jamais Desista / Máscara) agradaram os antigos e novos fãs e uma nova porta se abriu pra banda.

“Fúria dos Elementos” – Metalmorphose (2015)
Em termos gerais, foi bem parecido com o “Máquina...”. Mesmo estúdio, mesmo produtor, mas, dessa vez, já tínhamos um parâmetro pelo qual sofrer comparações, já que o “Máquina...” foi muito bem recebido pela imprensa e fãs. No “Fúria...”, nós resolvemos nos soltar bastante em termos de composição e o resultado ficou bem legal, com algumas músicas maiores e  mais complexas em termos de arranjo, mescladas ao Heavy Tradicional já conhecido. Mais uma vez, as similaridades com o Máquina, em termos de temas e produção se fazem presentes. Tivemos uma troca na formação com a saída do Leon Mansur e entrada do Marcos Dantas (ex-Azul Limão/ X- Rated) o que trouxe renovação pro time de composição. Me lembro de que havia uma certa expectativa em relação ao álbum, por parte dos fãs. “Vai ser igual ao Máquina”? “Como será que está o som, agora que o Marcos Dantas entrou?” E, na verdade, também ficamos ansiosos para ver a reação dos fãs. Tudo acabou bem (risos). O “Fúria...” representa a confirmação de um nível de qualidade muito bom (humildemente afirmo) por parte da banda e a certeza de que a banda estava embalada para seguir em frente nesse “Mark II” com garra e fome de Rock Pesado.

Metalmorphose atual


“Ação & Reação” – Metalmorphose (2017)

Eu me preparei bastante pra gravar esse álbum e ele teve inclusive algumas músicas que tiveram seus arranjos criados para acompanhar letras minhas e levadas de bateria, também. Com o Big prestes a deixar o país e sem tempo pra se dedicar totalmente à prática, algumas músicas foram ‘sopradas’ por mim, enquanto gravávamos e funcionou muito bem! No mais, ficamos todos super à vontade. Eu, gravando novamente no Estúdio HR, onde sempre sou muito bem tratado e assessorado, e os demais integrantes gravando no Estúdio Naked Butt de propriedade do nosso produtor.  Dessa vez, tivemos uma participação maior dos integrantes, em termos de composição de letras e o produtor Gustavo Andriewski conseguiu uma produção mais crua e “na cara”, que combinou bastante com as músicas mais diretas, compostas pro disco. Bom, as gravações de batera e baixo foram feitas meio ‘a toque de caixa’, porque eu sugeri nós gravamos o paly antes do Big (André Bighinzoli – baixista original) se mudar para a Itália. Reunimos o material que tínhamos, em tempo recorde, vimos que tínhamos material interessante e bastante diversificado e de qualidade e ensaiamos a “cozinha” em ritmo alucinante, para podermos registrar o “alicerce” rapidamente. Curioso foi que essa primeira parte foi registrada rapidamente, no final de 2015, mas o álbum (que havíamos planejado para 2016) só foi sair em 2017, devido a conflitos de agenda com o Gustavo. De qualquer maneira, esse tempo acabou sendo útil. O “Ação e Reação” acabou saindo bem diversificado, variando entre momentos mais diretos e outros mais épicos, mas com um ‘ar’ bem mais espontâneo e de fácil assimilação. É aquele tipo de álbum que já agrada na primeira audição. Algumas pessoas disseram que o consideram o melhor da banda, o que obviamente é muito satisfatório de se ouvir. Com algumas músicas mais para o Hard Rock e até um Blues, deu pra banda mostrar que ainda temos lenha pra queimar e não precisamos ficar presos o tempo todo a uma mesma fórmula, para mantermos os fãs satisfeitos.  


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